No meio do rodopio, um (re)canto sossegado, simples e encantatório. Não se ouvem pássaros, mas conseguem-se imaginar a esvoaçar por entre os galhos de uma árvore.
Pacifica e, ali, num encontro que se quer interior, consertam-se coisas nossas. Perto, e democraticamente, aguarda-nos uma saborosa refeição, inimiga das pressas.
Descobri-o. E gostei.
Descubra-o também. O seu espírito há-de agradecer.
E, já agora, não deixe escapar o chocolate do bosque...
Foi no passado dia 27 de Abril, no Convento de Mafra. Em directo para a Antena 2, o Mediae Vox Ensemble (en)cantou quem, como eu, teve o privilégio de poder assistir (ou apenas ouvir) a uma hora que se quis mágica.
Na direcção musical, ainda e sempre Filipa Tapina. Ela faz-se de música mas, na pauta da sua vida, os prazeres sossobram. Assim, como quem folheia um livro e descobre, a cada página, uma nova rima.
Brevemente, ela estará num quiosque perto de si. Não a perca de vista.
Não sei o que falharia ainda, se o mais não tivesse falhado.
Ser feliz. De vez em quando, discretamente, pudicamente, ergue-se em ti ainda esta velha aspiração. Mas já não são horas de o seres, seriam só de o teres sido. De que é que depende a felicidade? O que falhou avulta quando enfrentamos a pergunta. Mas só se não tivéssemos falhado saberíamos se foi isso que falhou. Sei o que falhou mas não sei se o que falhou foi isso. A felicidade ou infelicidade têm a sua escala de grandeza. Tenho os meus motivos grandes mas os pequenos absorvem-nos. Problemas do destino, da verdade, do absoluto que desse a pacificação interior. Mas eles apagam-se ou esquecem com uma simples dor de dentes. Assim eles me avultam apenas quando essa dor se apazigua. Que dores menores me pontuaram a vida toda? Do balanço geral há o que somos para os outros e o que somos para nós. Ser feliz. Possivelmente o problema está num dente cariado. Sei o que falhou.
Não sei o que falharia ainda, se o mais não tivesse falhado. Que falsificação de nós inventamos para os outros que no-la inventaram? Ter grandeza no que se sofre para ao menos nos admirarem o sofrimento. O que sofri entremeado ao público sofrimento não tem grandeza nenhuma. Precisava bem de saber se a minha verdade definitiva não está aí. Ou ao menos a condição de tudo o mais. Para me negar radicalmente na obscuridade de mim. Para saber definitivamente o que vou entregar à morte. Porque pode ser só aquilo de que a morte tomará posse, sem restar nada de que tomem posse os outros.
Amanhã, pelas 20h00, na RTP Memória. A não perder o documentário sobre um dos mais importantes romancistas portugueses do século XX. Para mim, o mais importante.
Amado por alguns, odiado por muitos, deixou-se fotografar por dentro ainda e sempre com letras. E que bem que ele sabia escrever...
Nasceu em Melo (Serra da Estrela), estudou num seminário, cursou Filologia Clássica, foi professor de português e de latim. Na escrita, deu os primeiros passos no neo-realismo, mas foi com o existencialismo que se despediu de nós. Nas páginas de Jean-Paul Sartre e André Malraux encontrava a sua bíblia.
Vergílio desapareceu aos 80 anos, em Lisboa. Mas escrevia sobre outros mundos. Toda a sua obra vive dessa montanha que o viu nascer, do silêncio perturbador, da solidão, da neve, do frio de rachar, do calor abrasador. Das tradições da aldeia, da resignação das suas gentes. De uma dor contida. Só conhecendo a vida de Vergílio Ferreira, se percebe realmente a sua obra.
Acasos da vida, tive a oportunidade de conversar com um seu antigo aluno, quando Vergílio leccionou em Évora. Não me desiludi com nada que ouvi, porque bate tudo certo. Era uma pessoa triste, aparentemente apagada, revoltada. Era alguém muito inteligente, que facilmente se 'perdia' em divagações filosóficas com os seus formandos. Um excelente professor, conhecido pelo 'sr. professor da letra miudinha'.
Dei os parabéns sentidos a esse antigo aluno. Porque teve o privilégio de aprender e privar com um verdadeiro mestre. E mostrei-lhe alguma inveja. Porque também eu gostava muito de o ter, pelo menos, conhecido.
Oito anos depois do seu desaparecimento, escrevi-lhe aqui uma carta. Será que a leste? Onde estás tu Vergílio?
A não perder de vista, este documentário. Na RTP Memória.
Uma Voz Canta Não Sei Onde
Uma voz canta não sei onde. Ergue-se sobre o
silêncio da terra.
Memória - A Marca Humana de 26 Freguesias do Concelho de Tondela
Hoje, pelas 18h00, a ACERT promove o lançamento do livro + DVD Memória - A Marca Humana de 26 Freguesias do Concelho de Tondela. Um retrato de uma família grande, que aqui se quer pequena.
Vinte e seis depoimentos feitos arte celebram os 30 Anos de vida da ACERT. Página a página, segundo a segundo, esta edição multimédia dá a ver, a ler e a ouvir uma, duas, três, vinte e seis histórias, umas quantas vidas, olhares mais ou menos distantes, nem sempre felizes, muitas vezes desencontrados de um mundo que se vê cada vez mais longe. E que nem sempre se consegue compreender.
Freguesia a freguesia, os elementos da ACERT calcorrearam e cruzaram os atalhos de um mapa de afectos, como tão bem lhes chamou Fernando Alves. Olharam nos olhos pessoas simples e pediram-lhes apenas que abrissem o baú das suas memórias, tão genuínas, tão ricas, tão fortes, que são elas mesmo o sustento desse orgulho inquebrável pelas raízes que são suas. E apenas suas.
A propósito desta obra - que é vida, que é arte - vale a pena ouvir o Sinal, deixado por Fernando Alves.
É uma tristeza já não se ver aqui ninguém que não tenha um cabelo branco. Alguém o diz. Talvez porque ainda não se conformou. Porque a foice da juventude foi mais forte.
No que a mim me diz respeito, vou olhar de perto estas pessoas. Porque são a minha gente. Porque são também as minhas raízes. Porque ali está um pouco de mim. Com muito Orgulho.
Entrei para o Curso de Silêncio. Ministrado pelo Amigo e Amiga. Um ensino - realmente - Superior.
(...) a liberdade deve estar em qualquer parte, e o primeiro acto livre que encontrei foi o da escrita. Só depois procurei a música. Toda ela é um amor interior que ainda não fala. Quem a recebe à porta, é quem o diz. Ela sai e entra, penetra no corpo, transforma-o em pregas de muda dimensão. Muda, por agora. Porque presumo que há-de ensinar-me o dobro das palavras que eu sei.
in Amigo e Amiga - curso de silêncio 2004 - Maria Gabriela Llansol
Broken bicycles, old busted chains
With rusted handle bars, out in the rain
Somebody must have an orphanage for
All these things that nobody wants any more
September's reminding July
It's time to be saying goodbye
Summer is gone, but our love will remain
Like old broken bicycles out in the rain
Broken bicycles, don't tell my folks
There's all those playing cards pinned to the spokes
Laid down like skeletons out on the lawn
The wheels won't turn when the other has gone
The seasons can turn on a dime
Somehow I forget every time
For all the things that you've given me will always stay
Broken, but I'll never throw them away
Não exibas tanto o esplendor dos teus dentes. Eu sei que são postiços. Mas há quem não saiba, dizes. Pois. Mas ainda que eu não soubesse, sabia-lo tu. Fecha a boca.
dorme bem, meu amor.
cobre-te com o lençol de terra que te puseram em cima e descansa.
fecha esses olhos que a vida te enegreceu.
eu estou aqui para te proteger dos pesadelos.
por ti, faço reza a minha vida.
tu, meu verdadeiro amor, és a seiva que me deixa ultrapassar os obstáculos desta minha vida pequena.
porque nem a morte foi suficiente para te tirar de mim.
enquanto o sono te amacia a dor,
ouço os recados do silêncio.
ele fala-me de ti.
da pureza,
da alegria,
da luta.
do arroz doce,
dos cravos brancos,
daquela lágrima.
da costura,
que te viu a vida do avesso.
DA NEVE.
e sinto que ainda não saí do teu ventre.
Sossega querida mãe. Larga essa tristeza em mim,
que eu ainda tenho força para olhar a vida como um poema.
diz-me que a tua morte não chegou para te tirar de mim.
e dorme. dorme bem, meu amor.
Terminei há alguns dias a leitura da Viagem ao coração dos Pássaros, aquele que a crítica menos aplaudiu a Possidónio Cachapa. Na minha opinião, injustamente.
No tempo em que existiam seres humanos, viveu-se a história trágica do homem-bomba e da mulher-trapézio. Um fatalismo realmente comovedor. Abala. E fica entranhado, bem perto do coração.
O livro é todo ele feito de magia, e só aparentemente simples. Numa paz desassossegada dos Açores, o destino chamou Kika para prestar auxílio a todas as almas, de alguma forma perdidas. Não importa se vivas se mortas. Porque aqui a espiritualidade tem outra pronúncia.
Quis o autor que o silêncio quase total de Kika se tornasse ensurdecedor, página após página. Custa e revolta o tanto que é dito sem que, no entanto, nada ou pouco fale. E, neste mundo de domínios, Kika não se domina a ela mesma. Porque há sempre um limite. Mesmo quando a coragem abunda. Mesmo ali, onde se ouve o coração dos pássaros.
(...) não foi excessivamente penosa a viagem ao coração dos pássaros. Pelo menos depois de perceber que se existisse um sítio onde a Verdade vivesse seria lá. Um local simples e efémero. Como o orvalho sobre a erva.